ventomania parapente
 
 
  Voando feliz. 
dezembro 2004
Aapesar de originalmente direcionado a pilotos, este artigo irá agradar a todos.


No meio do azul do céu havia um ponto amarelinho.. Lá estava eu, voando, voando, longe de tudo, longe de todos ao mesmo tempo em que tudo a minha
Alguns pilotos por perto estavam subindo, enrolando umas térmicas quando eu senti um pequeno solavanco. Opa! Era minha vez de subir!! Procurei fazer tudo como alguém me ensinou: mantendo o corpo relaxado deixava o parapente ser "levado" pela termal permitindo o movimento da vela que refletia na selete e então eu fazia uma pequena curva, sentia o meu corpo pendular alinhando com o solo e aí eu   jogava o corpo para o outro lado enquanto puxava um pouquinho o freio para entrar em curva. Consegui desenhar um gancho no céu, igualzinho ao da folha de papel que meu mestre havia desenhado nas suas gostosas aulas.

Tudo parecia perfeito até aquele momento, adotei uma inclinação mais ou menos constante, até ficar estável em perto de 30º e ia rodando. Lembrava-me de reduzir a velocidade um pouco, pois ficara sabendo, (e comprovei isso fazendo exercícios com o variômetro) que afunda-se menos se andarmos um pouco mais devagar. Procurava não ficar muito fanático pelo raio de minha curva, adotando uma certa permissividade em relação a onde a termal queria me levar... é verdade, parece que o parapente quer mesmo se encaixar em uma determinada região da térmica.

Esse alguém me disse também que eu deveria ficar atento quanto a fazer uma pesquisa constante de núcleo, procurando fechar o raio da curva se eu sentisse que estava indo para uma região mais fraca da termal e abrindo o raio um pouco se a sensação fosse oposta. Ele também me falou que durante a subida, eu deveria procurar esvaziar meu pensamento de "besteiras" e procurar ocupá-lo com um planejamento do que eu faria depois que chegasse na base.

Então, os pensamentos sobre minha mulher que estava lá embaixo no carro, meus outros colegas que voando também, o pessoal na rampa, até meu escritório e meus filhos que ficaram com a avó, deram lugar para uma visão que se esticava até a nuvem na rota que eu tinha escolhido antes de decolar... é que antes de decolar, aprendi que após eu me certificar de que lado estava o vento, que procurasse dar uma olhada na "cara" da rota, assim eu não iria precisar ficar me preocupando muito em decidir isso, pois já teria decidido no solo. E realmente aquilo estava certo. É mais fácil!! Vi que o vento na rampa soprava de nordeste e que as nuvens também estavam se movendo naquela direção.

A rota mais sensata me pareceu ser por cima da estrada, apesar de ela estar seguindo ligeiramente de través, mas muito pouco. Provavelmente eu deveria ficar atento para isso e procurar sempre forçar um pouco para a direita, especialmente quando estivesse alto, assim eu diminuía o risco de ter de voar a 90º da rota se derivasse demais.

Bem, eu ia subindo devagar enquanto olhava para frente imaginando onde poderia estar o disparador daquela nuvem que estava a mais ou menos uns 5km na minha frente.

Achei que o caminho melhor era realmente ir para perto dela... bem, com o vento uns 10º fora da rota, o disparador me parecia um terreno bem grande com umas árvores na borda que ficara um pouco a minha direita; era para lá que eu iria logo após.

Fiquei contente por estar subindo, parece que a idéia de decolar na hora que o vento começasse a sofrer alterações na rampa e também quando as nuvens começassem a se formar era mesmo uma decisão acertada. Claro que eu procurei ficar atento nos urubus, afinal nós brasileiros somos agraciados com esses bichinhos fedidos que sabem tudo de voar termal. Decolei na hora que um grupo deles finalmente começou a subir legal na frente da rampa... a térmica estava lá, quase que me esperando.

Percebi que quanto mais eu subia, mais organizada a termal ia parecendo... ah, se fosse fácil assim quando eu estava lá embaixo, seria uma maravilha; parece que as térmicas perfeitas estão reservadas como prêmio para aqueles que conseguem pacientemente vencer as primeiras centenas de metros perto da rampa sofrendo um pouco para subir, especialmente para centralizar.

A dificuldade que eu senti quando estava baixo parecia estar dissipando-se, ou será que eu estava mesmo aprendendo a lição? Bem, o que importava era que naquela hora meu parapente subia bem mais fácil e já ia batendo fácil dois, dois e meio, quase três metros por segundo. Era uma maravilha!

De vez em quando meu parapente parece que queria ir embora e me deixar para trás, principalmente o lado de fora do raio da curva. Mas aí eu dava uma freada maior e tudo voltava ao normal. Nem me preocupava em jogar o corpo, afinal isso ia me tirar do raio da curva.

Às vezes a termal ficava repentinamente mais forte... sentia o vento aumentar no meu rosto e logo depois a vela parecia que queria ir para trás. Nessa hora eu liberava mais os freios e logo tudo voltava a ser como antes.

Já estava subindo fazia algum tempo e nessa hora me dei conta de que estava bem mais frio. A nuvem parecia que estava maior, ou será que era porque estou me aproximando dela? Dava-me vontade de tirar, como parecia que alguns pilotos estavam fazendo, uns inclusive bem mais baixo que eu, mas me lembro que aquela era a minha primeira termal, o risco de não encontrar nada no início da minha tentativa de cross era muito grande, o negócio era me garantir ao máximo procurando adquirir a maior altura que fosse possível e só então tirar com uma boa margem.

Já estava me aproximando mais da nuvem e voltei a me lembrar da minha "próxima" nuvem, ela ainda estava lá, se bem que naquela hora era mais difícil enxergar a bendita. Ainda bem que eu já tinha memorizado a rota durante a subida. Minha bússola me disse duzentos graus, assim era mais fácil, mesmo que eu momentaneamente me perdesse, era só seguir a bússola.

Me aproximei mais da base e notei que mesmo abrindo bastante o raio da curva eu também continuava subindo. Então, antes de chegar na base comecei a abrir mais o raio até assumir uma reta pela direita da nuvem. Na verdade procurei ir pela direita pois o sol batia na direita e também o vento vinha um pouco da direita; provavelmente a deriva estaria jogando a parte ruim da nuvem um pouco mais para a esquerda.

Continuei subindo até sair debaixo dela com o extradorso tocando o algodão acima da minha cabeça. Fui soltando os freios, mas mantendo um "encosto" neles só para sentir um pouco a vela e comecei a acelerar devagar. Eu tenho medo de acelerar de uma vez porque a vela avança antes da gente e termino por perder muita altura. Fui então acelerando até uns 50% e me pareceu legal assim, afinal a termal que eu tinha deixado a segundos para trás não era tão forte. Se eu tivesse bastante sorte, dali uma hora mais ou menos com térmicas mais fortes em volta de mim eu poderia acelerar até uns 80%. Seria uma beleza!

Olhei para baixo e vi que alguns dos pilotos que havia tirado antes, estavam muito baixo procurando desesperadamente alguma termiquinha que os trouxesse para onde eu estava; que coisa não? De repente eu saíra da mesa de meu escritório para um lugar no topo do mundo.

O ar foi ficando mais liso e fui abrindo um pouco para a direita forçando um pouquinho a rota enquanto eu estava alto. Era bom aproveitar essa hora que o ar é mais rarefeito e forçar o planeio no través, assim quando eu ficasse baixo não precisaria me preocupar muito em corrigir a rota podendo voar no caudal procurando uma nova termal; já pensou voando baixo e tendo que andar a 90º na rota para não ter de pousar no meio da roubada? Tô fora!!

Durante essa tirada, percebi que havia momentos em que o parapente ganhava mais sustentação e tinha a tendência de ir para trás. Nessa hora eu apertava um pouquinho mais o acelerador o que corrigia essa tendência. A mesma coisa acontecia em outros momentos quando a vela queria avançar. Eu aliviava a barra e a vela estabilizada de novo; nem era preciso acionar os freios na maioria das vezes.

Fui voando e perdendo altura até que senti que o ar em minha volta parecia um pouco mais agitado. Havia uma certa "perturbação". Reduzi a velocidade e mudei a rota ligeiramente para a esquerda no caudal puro até que encontrei uma nova térmica. Olhei para baixo e percebi que a deriva batia em cima de umas torres de alta tensão com um grande arado embaixo. Provavelmente as térmicas "escorregavam" pelas torres que funcionava como um conta-gotas.

Que fascinante este muito fluido invisível! As coisas se parecem muito com as gotas d’água, todo movimento do ar parece encontrar um universo paralelo nos demais fluidos... saí do meu devaneio lembrando que o ar é um fluído, e obviamente seu comportamento será semelhante a todos os demais fluídos, em todos os aspectos; bem... pensava racionalmente mas não deixava de me maravilhar com o que este universo me proporcionava.

Meu vôo continuou por um bom tempo, encontrei vários disparadores diferentes, como o terreno cortado por um rio com uma linda mata ciliar. Era um terreno grande e eu joguei direto sobre o rio quando já estava baixo. Foi na certeza, havia uma termal exatamente ali. Aquela história que me contaram que as zonas frias jogam ar como uma espátula debaixo das zonas quentes disparando térmicas se revelava uma grande verdade, ou uma incrível coincidência... bem, como sou levado a acreditar que nem o dia em que bati o carro no carro da pessoa que viria a ser a mãe de meus filhos, se devia a uma simples coincidência, mas sim a uma precisa conspiração universal para a continuidade de meu processo de evolução, preferi acreditar naquela acepção da verdade.

Lembro também do morrinho no meio do nada... era como um lindo mamilo, fonte de vida, jorrando uma termal láctea sem fim.

Quando eu finalmente achava uma térmica após uma breve apreensão com receio de "pregar", eu evitava o riso; mantinha a concentração e o cenho franzido procurando me esquecer de qualquer manifestação de júbilo que pudesse arrancar minha atenção.

Nuvens, planeio, aceleração, perturbação, desaceleração, térmicas, nuvens. A estes "brioches técnicos", eu procurava dar um recheio de planejamento, seguindo os conselhos de "voar à frente no tempo" enquanto via o ciclo repetir-se por diversas vezes.

Folhas perdidas a milhares de metros de altitude, insetos, pássaros, cheiros, sons... vocês sabiam que as térmicas carregam sons com elas? É verdade!! A condutividade do ar parece carregar mais ruídos dentro das térmicas do que fora delas e possivelmente mais silêncio quando passamos pelas descendentes! Tudo isso era um universo de sensações a ser explorado, um universo que parecia encontrar um terreno fértil no silêncio de minha mente; assim quanto mais eu conseguia calar meus pensamentos, mais claramente este universo enviava suas intermináveis mensagens para dentro de meus ouvidos, meus olhos, meu próprio corpo.

Na minha cabeça, repentinamente não havia espaço para preocupações, para receios, para medos... havia sim um imenso espaço vazio sendo preenchido por tudo aquilo que o meu universo particular nele despejava.

Aquele vôo se tornara um imenso privilégio, um privilégio que parecia ter sido concedido a mim com recompensa pelo meu silêncio, pela minha paciência e pela minha perseverança.

Quantos quilômetros voei naquele dia? Ora... nem me lembro pra dizer a verdade... estava mais preocupado com outras coisas mais importantes, com toda certeza!!