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Entendendo a trajetória

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O parapente está parado e suspenso no ar, ou ele está se movendo ao longo de sua trajetória? Esta discussão parece meio absurda de óbvia para qualquer um de nós, mas no momento de imaginar a evolução de manobras no parapente dentro de nossas mentes, muita gente termina recriando exatamente a primeira equivocada visão.
Durante minhas palestras sobre didática de ensino e metodologia de exercícios práticos, algumas vezes me deparo com perguntas particularmente curiosas.
Uma atenção ao conteúdo destas perguntas denuncia uma frequente dificuldade que muitos pilotos encontram que é a de desenvolver a capacidade de imaginar e compreender como o parapente se move ao longo de sua trajetória.
Acredito que alguns dos maiores vilões aqui, sejam os vídeos que focalizam um parapente executando manobras sem uma referência fixa, ou seja, o chão.
parapente olhando de baixo
Para quem está no chão e olha o parapente lá em cima, fica muito difícil imaginar a trajetória. Essa é a visão que a maioria dos vídeos nos dá. Falta a referência de solo que nos dá a noção do caminho a ser percorrido.

Então a impressão que fica é a de que aquela aeronave está fixa em algum ponto no céu, executando espirais, wingovers ou qualquer outra manobra. Dificilmente fica claro que ela está efetivamente percorrendo uma trajetória no ar, o que é fundamental para a compreensão da mecânica do movimento.

Recentemente um piloto me perguntou o que acontece quando se está executando uma espiral e acionamos ambos os freios simultaneamente. Ora, entender o caminho que velame e piloto percorrem durante a espiral é a chave para a construção da resposta a esta pergunta.

parapente olhando de cima Quando olhamos para o vídeo do piloto fazendo uma espiral, podemos imediatamente, sem muito esforço, imaginar a primeira das forças que atua no movimento. Esta força insiste em empurrar o piloto para fora do eixo da rotação e recebe o nome de força centrífuga, afinal o brinquedo está girando.
Ao observar de cima, vemos que o piloto está voando em direção ao solo. Já não é tão difícil imaginar a trajetória.

Com um pouco mais de carinho, vamos conseguir imaginar também que o próprio velame está sujeito ao efeito da mesma força, já que se ele possui sustentação – opa! , apareceu mais uma força, puxando o aerofólio no sentido inverso: sustentação – já vamos voltar a conversar sobre sustentação daqui a pouco. Bem, o brinquedo está girando, então também está sujeito à força centrífuga. Essa figura é fácil de imaginar quando olhamos o vídeo, idêntico ao que acontece quando seguramos a ponta de um pedaço de barbante com um objeto amarrado à outra ponta e o giramos sobre nossas cabeças... mas é isso mesmo que está acontecendo enquanto o piloto faz acontecer sua vertiginosa espiral? E onde ficam os vários metros por segundo para baixo? Hum... para baixo... então vamos imaginar a atuação da próxima força, aquela que conforme Newton notou quando uma maçã lhe atingiu a cabeça enquanto descansava debaixo de uma macieira. A força da gravidade ou atração gravitacional.

Sabemos que essa misteriosa força governa o universo e mais misteriosamente ainda ela atua com uma força proporcional a massa do objeto.

Uma vez que o maior objeto que temos por perto é nosso próprio planeta Terra, então aí está a gravidade atraindo tudo para dentro dela.
Bem, a gravidade está atraindo o parapente e seu piloto em direção ao chão, mas por que ele apenas não despenca como uma pedra, ou como a maçã de Newton?
parapente olhando de lado

Ao representarmos a trajetória, podemos conferir a ação dos vetores imaginado a trajetória (vetor azul) como uma resultante das demais forças. (note que a força da gravidade não está representada por nenhum vetor visível: Força centrífuga em verde, sustentação em amarelo, trajetória em azul, arrasto em Vermelho.

É preciso que fique claro que o parapente não está de fato caindo, mas sim voando. Vamos agora voltar para a sustentação que mencionei acima. ela é a próxima força a ser levada em conta. Ela é a resultante do perfil aerodinâmico criado pela asa em velocidade. Esta força age puxando o aerofólio para cima, ou seja, contra a força da gravidade.
Vamos ver quem puxa mais forte? A sustentação necessita de velocidade para acontecer, e ela será limitada por mais uma força que é o arrasto, ou seja, a dificuldade ou resistência que um corpo encontra ao tentar atravessar a massa de ar, empurrando as moléculas de ar para poder passar entre elas.

Estamos agora completos! Gravidade, sustentação, arrasto e sua resultante: a trajetória, ou seja, o caminho que a asa percorre rasgando o ar ao seu redor. Uma vez que o aerofólio está configurado para girar enquanto voa, está também carregado de força centrífuga. É justo imaginar que se reduzirmos a força centrífuga, a tendência será de retomada de voo reto, já que sem a centrífuga, não há como se manter girando em direção ao solo. Finalmente, se o piloto acionar os freios, só poderá produzir a redução da velocidade do conjunto que por sua vez produzirá uma redução na força centrífuga e consequentemente, uma saída da espiral.

Bem, mas a pergunta foi feita porque o piloto desejava saber a diferença entre puxar o freio de fora ou ambos os freios, será que você não está me entendendo? Então vamos olhar para isso: uma vez que o freio de fora está mais distante do eixo do giro da espiral, a velocidade é muito maior que a região do freio do lado de dentro, que por sua vez está mais próximo do centro do eixo vertical.

O fato é que não faria muita diferença entre puxar o freio de fora ou ambos, justamente devido ao fato da influência do freio externo ser muito superior a do interno por conta da velocidade daquela região da asa. A coisa é que quando um piloto passa por uma experiência como a espiral, ele pode eventualmente experimentar certa perda de orientação. Então será muito mais fácil para qualquer pessoa puxar ambos os freios ao invés de ter de analisar qual é o freio ‘certo’ para ser puxado, ou seja, o de fora. Apenas uma questão de simplificar as coisas.

De posse de todos os dados, partimos para o processo de visualizar o evento em nossas mentes, como se fosse um filme e é claro, a compreensão dos comportamentos do parapente no ar torna-se muito mais intuitiva e natural. Você pode simular diferentes manobras brincando com um chapéu enquanto puxa as cordinhas simulando o peso do piloto. Um par de óculos com as hastes juntas também funciona. O essencial é nunca se esquecer de que o parapente não está parado no ar, mas sim percorrendo uma trajetória em meio ao ar.

Enxergar o movimento é a chave de sua compreensão.

Sivuca - julho 2015  

 

 

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