Sivuca
ventomania parapente
 
 
 

Um puxão de orelhas


Em entrevista para a ESPN*, o instrutor Sivuca respondeu algumas perguntas a respeito da controversa questão chamada “Orelhas”. A manobra de descida comumente chamada de orelhas trata-se do fechamento das pontas do parapente produzindo assim um aumento na taxa de queda.
O assunto vem tomando espaço nas conversas dos pilotos, vamos escutar o que ele tem a dizer:

Reporter: Ola Sivuca, por que o tema “orelhas” é tão frequente?
Sivuca: Há muitos anos atrás, comprei uma motocicleta nova, então minha avó me perguntou: “já sabe fazer curvas?”. No início não entendi a pergunta, mas o que ela queria dizer é que depois de aprender a andar reto, a primeira coisa que um motociclista precisa dominar é fazer curvas. Então, quando um motociclista novato quer mostrar para os amigos que já domina “espetacularmente” seu cavalo de ferro, ele faz lindas curvas para demonstrar estas habilidades. O mesmo acontece com as orelhas, trata-se da primeira manobra que a maioria dos pilotos aprende e naturalmente, quando falamos em maioria, falamos em quantidade, ou seja, aquilo que se vê com mais frequência.

Reporter: Mas as orelhas são realmente o primeiro desafio de um piloto?
Sivuca: Claro que não, a orelhas tem tanto apelo de marketing porque trata-se de uma modificação do formato original do parapente, o que pode representar a garantia de que o orelhudo, domina de fato seu parapente... , embora para os mais experientes isso tudo seja uma grande bobagem, arrancar alguns oooohs da plateia para quem está começando, pode garantir um retorno de autoestima importante. Assim como eu talvez esteja tentando ser reconhecido ao responder a esta entrevista, todo mundo também quer sua fatia do bolo. O problema é que algumas pessoas estão preocupadas com técnicas de descida enquanto ainda não conseguem fazer o parapente subir e Infelizmente coisas importantes como controle de solo indelével, decolagem olímpica, curvas perfeitas, aproximação primorosa e pouso absolutamente preciso parecem não ter o mesmo prestígio que um tolo puxão de orelhas...

Reporter: Mas então as orelhas servem apenas para exibição?
Sivuca: Claro que não, embora na maior parte das vezes sejam utilizadas com este fim, como você falou no início, as orelhas são uma técnica de descida que pode ser utilizada em alguns casos específicos sob condições adequadas.

Reporter: E que condições são estas?
Sivuca: Pilotos experientes que estão participando de campeonatos sabem que é proibido entrar em nuvens durante as provas, as orelhas ajudam a reduzir a taxa de subida evitando entrada em nuvem e consequente penalização, além de ninguém gostar muito de voos cegos. As orelhas produzem um aumento na taxa de queda que pode chegar a -5m/s se forem bem grandes, com a vantagem de permitir que o piloto continue voando em uma determinada direção. Pessoalmente eu detesto aquele pano flapejando e prefiro não fazer orelhas em caso algum, a esta altura de minha vida de piloto, nas raras vezes que vou para a rampa, meu objetivo é voar, então abreviar meu voo me parece um contrassenso diante daquilo que eu tinha planejado. Aliás, planejamento é a chave de qualquer voo. É através da habilidade em planejar um voo, que um piloto garante seus melhores resultados. Observar a condição e se certificar de que não haverá motivos que o levarão a ficar com vontade de descer mais rápido é uma página essencial desta aventura. Alguns pilotos simplesmente chegam à rampa abrem suas velas e saem voando, para depois constatar que o céu estava caótico, ou que suas bexigas estavam cheias, ou que havia uma linha arrebentada no parapente ou qualquer outro motivo que o façam desejar estar no chão. É uma pena, eles investiram um monte de energia e dinheiro para conseguir voar e agora que estão lá, querem voltar correndo para o chão... e eu querendo subir e muitas vezes não consigo...

Reporter: Mas muitas vezes os pilotos alegam precisar de orelhas para fazer aproximação perdendo altura mais rapidamente...
Sivuca: Uma colocação com sentido questionável, afinal qual o sentido de descer mais rapidamente se podemos passar mais tempo voando? Vontade de gastar as botas? O passageiro está vomitando? Claro, muita gente irá dizer que "precisa descer". Mas pense bem, será que chegar meio ou um minuto mais cedo irá mudar tanto assim o contexto geral na grande maioria das vezes?
O erro que muitas vezes não é visto está mesmo em um fato físico/aerodinâmico que precisa ser encarado de frente.
Quando fazemos orelhas, reduzimos a área e aumentamos a carga alar. Embora na matemática, um aumento de carga signifique um aumento de velocidade cruzeiro, a perda dos estabilizadores, que são os responsáveis pela redução do arrasto induzido, nos trás mais arrasto parasita, o que termina sim reduzindo a velocidade cruzeiro.  Além disso, a velocidade de estol sobe drasticamente aproximando-se da nova velocidade cruzeiro o que contribui para o aumento das chances de estolar o parapente. Então, fazer orelhas a baixa altura é uma prática bastante arriscada, pois o risco de estol inadvertido é maior que os eventuais benefícios que algum grande visionário possa ser capaz de enxergar.

Reporter: Então fazer orelhas para pousar na rampa também é condenável?
Sivuca: Eu diria que sim, sem dúvida alguma, pois nesse caso, além de todos os problemas que narrei no comentário anterior, estamos com um agravante importantíssimo que muita gente ignora... Quando estamos no lift, o risco de estol aumenta drasticamente porque o componente de lift faz com o que o ar se mova no sentido ascendente, levando a incidência do parapente a ângulos mais críticos. Isso é especialmente diferente de fazer orelhas fora do lift onde a incidência não é tão crítica assim. Fazer orelhas para pousar na rampa é portanto, andar no fio da navalha, ou seja, uma prática bastante insana.

Reporter: Mas nada é 100% como você sempre diz, então como fazer orelhas se realmente for necessário?
Sivuca: Digamos que o seu passageiro de duplo esteja tendo um ataque cardíaco e você precisa pousar para salvar a vida dele, ou que o El-niño tenha enchido o céu de cumuloninbus em pleno inverno ou que o pai de sua noiva tenha jurado que proibiria o casamento caso você não fizesse lindas orelhas, então nesses casos desesperadores, após bater com o chicotinho nas costas como castigo pelos seus pecados, escorregue um pouco para frente na selete e alcance as linhas externas dos tirantes A o mais alto que puder (alguns parapentes tem orelhímetro, também conhecido como punhetímetro). Com um tranco rápido, puxe-as para baixo o mais que puder (certifique-se de não estar usando luvas, assim você queima as mãos e pode exibir as cicatrizes de sua masculinidade aos seus amigos mais tarde). Use o corpo com suavidade para fazer curvas. Você pode acelerar o parapente enquanto isso, é super desajeitado, mas dá para ser feito. Se fizer, aproveite para fazer orelhões puxando as linhas número dois. Deixe só um pedacinho do parapente aberto, algo como dois ou três metros de pano. Fique olhando para cima e se imaginando recebendo de uma meninina de vestido cor-de-rosa, um buquê de flores como cumprimento pelo fantástico fato realizado enquanto uma plateia considerável se arrebenta de aplaudir. Quando pousar, você pode se masturbar atrás de uma moita. Isso tudo é para os rapazes, já que as moças costumam ser um pouco mais inteligentes.

Reporter: Para quais práticas você acha que os voadores mais novos deveriam orientar suas energias?
Sivuca: Você tocou em um fator primordial: Energia. Quando olho em volta, vejo uma quantidade muito grande de energia sendo gasta com efemeridades. Ao invés de estudar técnicas para melhorar a subida, ou apenas curtir o voo, vejo pilotos super preocupados com suas manobras para provar para seus colegas que conseguem fazer algo “a mais” com seus parapente; pilotos envolvidos em longas pesquisas e discussões a respeito de marcas de parapentes, números de performance, taxa de queda, velocidade máxima e outros marcadores que de fato nada trazem de muito importante para a vida do piloto médio. Tudo isso é uma cortina de fumaça cheia de retórica que muita gente atira sobre a realidade da vida de piloto. Acho que toda essa energia poderia e deveria ser orientada para questões relacionadas à evolução técnica de cada um, como por exemplo, enrolar bem as térmicas, ou mesmo um simples controle de solo. Quantos pilotos realmente conseguem inflar e controlar seu parapente com primazia? O bom controle de solo está diretamente relacionado à habilidade em conduzir o parapente nas térmicas e agir a tempo de evitar problemas.
Vejo pilotos que ainda não voaram 20km voando com equipamentos caríssimos como seletes carenadas ou usando variômetros integrados de última geração, qual o sentido em tudo isso? Eu mesmo te respondo: quando você passeia pelo shopping, tem muito mais chances de entrar numa loja de eletrônicos e sair de lá com uma TV de 50” debaixo do braço do que com as reservas para um final de semana num hotel bacana com sua família. As pessoas estão rodeadas de um concretismo avassalador. Somente aquilo que pode ser tocado tem valor. Então estes pilotos trocam de equipamento como quem troca de roupa mas não investem em cursos ou excursões para além do quadrilátero da rampa de suas cidades. Estes últimos são conceitos abstratos demais para o perfil do ocidental médio e seu desuso é explicado com as mais mirabolantes desculpas, especialmente a falta de “tempo”. Na verdade só tem valor aquilo que pode ser apalpado. São pouquíssimas as pessoas que se penduram no ceu para simplesmente estar lá sentindo tudo aquilo com toda sua imensidão, sua intensidade. Ao contrário, é preciso descer logo e ver o que o pessoal achou das minhas manobras...
Isso não acontece só com voo livre, qualquer esporte é muitas vezes utilizado como uma ferramenta de autopromoção ao invés de curtição e contato com a natureza. Mergulhadores, esquiadores, pilotos de kart, de motocross, de kite-surf, base-jumpers e mais um monte de gente está se arrebentando porque está tentando fazer o que chama atenção a priori do que deveria estar sendo feito para garantir uma evolução técnica aceitável.
Tem gente que vai dizer que se lembra muito bem do Sivuca sempre fazendo manobras antes pousar, é a pura verdade, mas o homem não é uma rocha, ele é uma coisa fluida que muda de forma, que cresce, que evolui, que percebe que o chão que está pisando está molhado, sujo, quente ou cheio de cacos e vidro e logo busca um sapato para se proteger.

Reporter: Já que você está falando sobre concretismo, o que você acha do mundo das acrobacias de parapente?
Sivuca: Sou, ou melhor, fui um acrobata do parapente. Uma grande parte da energia destinada ao voo foi dedicada à acrobacia durante minha vida de piloto, fui o primeiro brasileiro a fazer um looping, sabia? Acho que um SAT também... era um tempo muito divertido, pois quase ninguém sabia nada e eu fazia pesquisas intensas na área. O primeiro looping, por exemplo, levou seis meses de prática de outras manobras como as espirais assimétricas todos os finais de semana até finalmente ser finalizado. Hoje os caras querem ir fazer um SIV de fim de semana e sair fazendo tudo. Naquela época, não tínhamos parapentes adequados para fazer acrobacia e nos virávamos com qualquer vela, nomes como Andy Heddinger, Walter Hoelsmüller ou Robbie Whitthal eram nossas referências. Depois veio a o divisor de águas, a avalanche chamada Raul Rodrigues que revolucionou o mundo da Acro. Com ele vieram todos seus seguidores e a acrobacia chegou aonde chegou. Isso lhe custou um irmão, uma perda muito dolorida, pura consequência do risco de uma prática tão extrema.

Reporter: Mas você parou?
Sivuca: Sim, parei de fazer acrobacias quando realizei um infinity tumbling. Naquele dia coloquei o pé no chão na beira da água na represa e conclui que dali em diante seria apenas questão de tempo para ser engolido pela vela. Nunca mais fiz manobra alguma... É como se o corpo pedisse algo que de uma hora para outra tivesse se tornado redundante ou dispensável. O tesão das manobras simplesmente não é mais o mesmo. Talvez por agora ser pai e ter uma família, eu tenha desenvolvido uma consciência de coletivismo que antes não havia ou talvez não fosse tão forte.
Recentemente voei centenas de quilômetros (somando todos os voos) com um parapente de competição de última geração e sequer fiz orelhas... Mas respondendo a sua pergunta, vejo a acrobacia de uma forma muito parecida com uma dança como o balé. É lindíssimo, mas é uma manifestação corporal e emocional. Não entra o cérebro aqui... embora eu precise dele para fazer cálculos e definir movimentos, na hora das manobras é só corpo e coração que estão funcionando. Isso é muito diferente de voar cross country, onde além do corpo e do coração, você precisa de um planejamento constante para nortear sua tomada de decisão. Vejo então o cross ou a competição como um jogo mais completo, pois estamos usando as três instâncias humanas em sua íntegra, o corpo, a emoção e a mente. Acho que é por pura preguiça mental que algumas pessoas só enxergam a acrobacia desde o início de suas carreiras de pilotos. Estas pessoas não experimentaram um verdadeiro exercício de estratégia mental em um voo de cross, dedicam-se apenas as sensações que o corpo e as emoções lhes transmitem... nada contra, mas tem algo faltando aqui; é algo abstrato, mas é algo que existe e quer ser descoberto.

Reporter: Se você tivesse de dar um conselho a um piloto que está começando, o que diria?
Sivuca: Concentre-se em desenvolver sua técnica, sua capacidade de julgamento e sua habilidade em realizar exatamente o que havia planejado. Quanto maior for sua capacidade de prever seu voo em todos os detalhes, maior a certeza de que você está indo na direção certa. Esqueça as marcas e modelos de parapente, esqueça os equipamentos sofisticados, mesmo tendo muito dinheiro, só se dê um variômetro de presente depois de ter realmente cumprido algumas metas, como por exemplo: realizar três voos acima de 20km. Aliás, o estabelecimento de metas é uma forma muito legal de não ficarmos perdidos no "e agora, o que eu faço?". Não banalize o esporte e sua vida de piloto reduzindo-se ao concreto, encontre espaço para o abstrato, a meditação, os cursos, as excursões. Pratique quando não tem ninguém olhando, nunca use seu voo como ferramenta para mostrar para os outros o quanto você é bom. Escute mais, fale menos, esqueça os números. Estabeleça metas de crescimento e seja o seu fiscal. Não fique reduzido ao espaço do lift de sua rampa, vá viajar, vá conhecer outros lugares de voo, presencie uma etapa de um campeonato importante, mesmo que você não tire o pé do chão. Faça cursos, procure ouvir o que os instrutores têm a dizer, compare opiniões, questione, questione, questione sempre.
Acho que está bom assim, não é? Muito obrigado pelo prazer desta entrevista.

Sivuca - fevereiro 2014

* a entrevista com a ESPN é fictícia, talvez a projeção de uma frustração em não ter sido tão entrevistado quanto o Frank Brown... :-)

 

 
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